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– Alô?
– Oi, sou eu. Preciso que me de 5 minutos. Não precisa falar nada, apenas me ouça durante esse tempo. Tudo bem para você?
– 4 minutos e 58 segundos lhe restam
– Bom, eu to aqui pra me desculpar pela montanha de erros que eu venho cometendo nos últimos tempos. Eu sei, não precisa respirar com esse ar de que sempre soube. Você sempre tentou me alertar mas você me conhece, sou metida a sabe-tudo e quero sempre ir além do que os outros dizem que é onde eu devo parar. É o meu jeito, sempre acabo colocando os pés pelas mãos quando estou apaixonada. Tenho essa necessidade súbita de dar o meu melhor e acabar esquecendo de mim, da gente…

Você estava e está completamente certa. Me decepcionei com a Marta, a Aline, a Paula e até mesmo com a Julieta. Isso mesmo que você ouviu, aceitei que a Julieta foi um erro. Talvez o maior de todos os outros. Eu sei, eu sei, não adianta rir, você também me avisou disso. Na verdade, me perdoa por ter gritado com você quando me alertou sobre ela? Eu estava louca de paixão, não enxergava um dedo a minha frente. Acabei descontando em você toda a aflição que eu estava vivendo naquele momento.

Eu não posso voltar no tempo. Até porque se eu pudesse eu não voltava, acabei aprendendo muito com todas elas, principalmente com a Paula e a Julieta. Elas me ensinaram a ouvir mais ao invés de só falar (perdi as contas de quantas vezes você me alertou sobre) mas me ensinaram também a entender que o amor não é o suficiente quando não há admiração. Essa é a palavra: admiração.

Queria que soubesse que não há ninguém que me conheça melhor e que eu admire mais que você. Já me enganei achando que outras pessoas pudessem me conhecer como você. Quer dizer, até que me conheciam sim mas apenas naqueles momentos previsíveis. É que você está comigo a tanto tempo que acabo me esquecendo as vezes o quanto você é importante.

Eu sei que por mais que eu acumule muitos erros, você é a unica que jamais desistirá de mim. Eu te decepciono tanto que fica até difícil de confiar em mim mais uma vez porém eu peço: confie em mim, não vou te decepcionar de novo. Aprendi que devo te ouvir em primeiro lugar, deixando de lado todo o resto e sei que assim caminharemos muito tempo juntas com muitas brigas, choros e risadas ao longo dessa caminhada.

– Esse ano é o nosso ano.

Não há nada nem ninguém que me ame, que me entenda e que esteja comigo mais do que eu mesma.

Vontades

Vontades nos levam junto ao vento
Vontades batalham com sentimento
Vontades que tecem as atitudes presentes trazem consigo sorrisos e arrependimento
E a vida continua o seu caminho
Com os pés cansados permaneço sozinho
A ilusão de ser um cara sem ninho
Some quando percebo que não possuo mais o seu carinho
Mania essa de estar sempre atuando
Gargalhadas que escondem uma alma chorando
Os sentimentos negados se acumulando
Fazem coro rindo sem pena de um coração sangrando
Vivemos presos em aparências
Construídas para nos adaptar às crenças
Da sociedade que define
Os des-homens por não conseguirem se manter sublime
Sobre as suas vontades
Querem transcender o conceito de humanidade

Carlos Roberto Ferreira 

Três chamadas

Quando nos conhecemos me avisou que atrás daquele jeito meigo tinha algumas manias difíceis de lidar. Apenas sorri achando que não encontraria nada tão aterrorizante ao ponto deu abrir a porta e dizer adeus.

“Uma chamada: cheguei.
Duas chamadas: cheguei, me liga.
Três chamadas: atende, quero ouvir sua voz.”

Demorei a me acostumar com essa mania e continuo achando que uma simples mensagem resolveria. Contudo, eu sigo sorrindo quando ouço o toque da sua chamada. Me diverte com suas manias e permanece achando que isso pode me afastar. Tola! Mal sabe ela que isso só me aproxima. Ouvi dizer por aí que sou para-raio de maluco…

Opa! Terceira chamada, preciso ir atender.

Primavera

Ideei que viria como todas as outras estações e acabei por me surpreender.
Foi chegando de uma forma conturbada, sem saber muito bem como, o que, e se deveria fazer algo para me mudar. Ela não sabia lidar com as palavras e nem com o que sentia, mas queria demonstrar algo que ali continha. Com sua forma torta nos primeiros dez dias ela mostrou-me que seria uma estação agitada e que isso era o que a diferenciava de todas as outras estações.

No décimo nono dia, despontou durante os seis dias que seguiram o quanto tudo pode mudar o tempo todo e o quanto a gente pode aprender se abrindo um pouco mais ao próximo. Trouxe-me para um novo mundo, um que eu não sabia ser possível existir. Eu, que sempre estive de coração aberto para novas experiências e novos caminhos, percebi, através dela, que eu posso mais, que esse ainda não era o meu maior. O vigésimo sexto dia chegou e ela, que não parava de me surpreender, dessa vez trouxe consigo um grupo unido do qual eu sentia que deveria fazer parte, um grupo que me viu desabando e não me deixou ruir. Estenderam as mãos e formaram uma corrente de apoio que me reergueu com muito mais que força total. E ela estava ali comigo mais uma vez, ela, sempre ela.

Hoje, no trigésimo nono dia ela resolveu me destruir para me reconstruir, me levar de zero a dez sem que eu intuísse. Ingênua ela, pois achou que eu não perceberia. Ela não cansa nunca de me mostrar que eu consigo ser cada dia um ser melhor e é incrível saber que sim, você pode e você deve ser o melhor de si mesmo a cada dia. Hoje ela me tornou capaz de me abrir e ser eu mesma pra mais de trinta pessoas, me ajudou a sorrir quando eu queria chorar e principalmente me ajudou a olhar o verão, outono e o inverno com um sorriso verdadeiro no rosto. Ela me leva a fazer coisas que eu, durante tanto tempo, pensava ser incapaz de realizar. E eu sou grata por ela nunca desistir de mim, grata por ela estar presente na minha vida e grata por ela mudá-la. Aprazida de tal forma que nada que eu faça seja adequado para demonstrar isso.

Ela não é uma pessoa, ela é um sentimento indescritível que a primavera me trouxe. Um anseio fidedigno que me transforma e que diariamente me auxilia a acordar com um sorriso no rosto quando o mundo berra um pulcro e harmônico “não” para mim. Ela é isso, ela é tudo. E eu só peço a primavera para que fique comigo nas próximas estações também porque foi a partir dela que ela apareceu.

À minha primavera que me surpreende todos os dias com um simples sorriso desajeitado e os olhos puxados.

E eu? Sorri

Por um acaso do destino, essa semana encontrei aquela nossa amiga em comum que é mais sua amiga do que minha. Depois de sondar como estou, se estou sobrevivendo com a sua ausência e como anda aquele meu problema na garganta, me falou que você está “incrivelmente bem e feliz”, nas palavras dela. Eu sorri sabia? Era tudo que eu sempre quis, não lembra?

Logo naquele começo de relacionamento, quando eu estava totalmente entregue, você me confessou que seu desejo no momento era namorar com aquela menina. Não sabe quem? Aquela que dirigia, morava sozinha, fazia faculdade e ainda trabalhava. Já sabe qual é? Então. Lembra o que eu te disse? Coloquei um sorriso que ia de orelha em orelha para disfarçar esses meus olhos que começaram a lacrimejar e te disse pra ir, tentar, buscar e ser feliz. Incentivei porque era o que iria te fazer realizada naquela momento, já que você sempre viveu de realizações.

Me lembrei agora daquele dia que você brigou com aquela menina que você considera(va) ter sido um amor puro e verdadeiro. Aquela sem maldades, apenas carinho e amor. Naquele dia você estava transtornada, lembra? Você não suportou a ouvir implorando para que a deixasse em paz para sempre, enquanto o que você só falava era que a amava demais. Que dia, que noite! Precisei passar a noite limpando suas lágrimas (e as minhas) e ouvindo aquelas poucas palavras que você falava entre os soluços provocados pelo choro. Aquela noite eu passei acordada tentando te fazer dormir, tentando te proteger de todo e qualquer mal, tentando te deixar incrivelmente bem na manhã seguinte. E você acordou com aquela dor no peito depois de uma decepção grande, como certamente foi, mas acordou melhor e eu acordei atrasada para aquela minha entrevista de emprego que já estava marcada a meses.

Caramba, quase me esqueci! Lembra quando aquela menina, a tal da Tereza, voltou querendo fazer as pazes com você depois daquela gigantesca briga? Como você ficou nervosa, preocupada, ansiosa e principalmente sem saber o que fazer enquanto convivia com ela, lembra? Foram tempos difíceis! Ouvi durante semanas você lutando contra (e ao mesmo tempo cedendo) a todo aquele amor que você sentia/sente por ela. Eu me sentia… não importa como eu me sentia. Mais uma vez te aconselhei, disse até para você vê se não tinha mais chance ou alguma reconciliação (amorosa) com ela. Eu falei isso, como não lembra? Foi no mesmo dia que teve uma repentina greve de ônibus, e eu dormi na sua casa. Naquela manhã você me deixou só no ponto de ônibus (como sempre). Nesse mesmo dia você ficou com a Tereza desde o fim do seu expediente até por volta de dez horas da noite esperando o namorado dela chegar. Tereza não podia ficar sozinha no ponto.

Eu deveria ter dito para nossa amiga em comum o quanto eu sempre quis te vê assim mas talvez ela pudesse achar que era ironia, porém de ironia esse desejo nunca teve nada. Tanto é que esses dias pra traz atendi o seu chamado de urgência com o coração na boca, pensei que era algo com você mas era só os seus desabafos rotineiros. Dessa vez era você me falando que iria pegar um ônibus e ficar dentro dele por mais de 430km, cerca de 6h, para encontrar a sua amiga (falando nela, a nossa amiga em comum fez questão de enfatizar que vocês estão sempre juntas agora). Eu disse para você ir, ir e ajudar a ela no que fosse preciso e até no que não fosse. Afinal, amigos e a paixão é pra isso: ir atrás, se arriscar. Desliguei depois de mais um conselho com os meus olhos repletos de lágrimas, lembrando que você nunca ficou 40km dentro de um ônibus para me encontrar durante aquela internação minha ou aquela da minha mãe.

Queria que nossa amiga em comum soubesse que a sua felicidade era tudo que eu sempre quis. Que vê seus sorrisos largos era o meu objetivo. Eu me apaixonei por ele, ela também deveria saber. Estou feliz, feliz por você está incrivelmente bem, feliz por tudo estar dando certo, feliz por não ter recebido ligações dizendo que sua mãe passou mal novamente (eu sempre soube que ela iria melhorar).

E como eu estou? Saber de mim nunca foi o seu objetivo.

Nos amamos à nossa maneira por três estações

Durante o verão, foi quando nos conhecemos. Calor exacerbado, horas conversando e noites viradas com um sorriso no rosto proporcional ao calor. Ah, é no verão que ocorre o carnaval. Ah o carnaval… Nos amamos todos os dias, uma à outra apenas.

E chegou o outono, estação que nem imaginávamos alcançar. Outono veio, porém mais turbulento que o temido inverno. Junto com as folhas que caíam, vieram brigas e términos. Mas, de repente uma árvore floresceu, esquecendo-se de que não estávamos na primavera. E seu florescer me encheu mais de amor. Algo inacreditável. Nunca passou pela minha cabeça a ideia de um amor assim.

Inverno veio e se fez temido. Nos afastou de forma que queríamos mas não achávamos ser possível. Foi nele, também, que nos permitimos tentar por uma última vez. Tentamos, não podemos negar. Somos diferentes, queremos e buscamos algo que não é compatível para com a outra.

E foi nesse inverno que nos deixamos, nos deixamos em paz. Não vamos para próxima estação. Paramos por aqui com o sentimento de primavera. Fizemos de tudo para esse amor florescer e se transbordar em nós. Ficamos por aqui, com um sorriso no rosto e sem o frio na barriga. Porém, com a sensação de que viver essas três estações valeu a pena, mesmo que as próximas não sejam tão apreciadas.